Sinopse:
Veneza, primavera de 1866. A ocupação austríaca da Itália está nos seus últimos e tensos dias, quando a Condessa Livia Serpieri — mulher nobre, casada e aliada da resistência italiana — cruza o olhar com Franz Mahler, um charmoso tenente austríaco no foyer do Teatro La Fenice. O que começa como uma escaramuça de vaidades transforma-se numa paixão devastadora: pela qual ela trairá seu marido, seu país, sua classe e sua própria dignidade — para descobrir, tarde demais, que entregou tudo a um homem incapaz de amar.
Prêmios:
- Indicado ao Leão de Ouro no 15º Festival Internacional de Cinema de Veneza (1954).
Curiosidades:
- Sedução da Carne foi o primeiro filme colorido de Luchino Visconti — e representa uma das viradas mais decisivas da história do cinema italiano. Visconti abandonou deliberadamente as raízes do neorrealismo, movimento que ele próprio havia ajudado a fundar com Obsessão (1942) e A Terra Treme (1948), para adotar uma linguagem cinematográfica operática, suntuosa e emocionalmente exacerbada. O crítico francês André Bazin, um dos maiores pensadores do cinema do século XX, reconheceu a ruptura, mas também sua coerência: afirmou que Visconti continuava buscando impor sobre o cenário magnificamente composto a rigor e, sobretudo, a discrição de um documentário — isto é, o impulso realista persistia, apenas revestido de beleza esmagadora.
- O elenco original idealizado por Visconti seria completamente diferente. O diretor havia convencido Ingrid Bergman — então banida de Hollywood por conta do escândalo de seu relacionamento com Roberto Rossellini — e Marlon Brando a estrelar o filme. Contudo, Rossellini se recusou a permitir que Bergman participasse do projeto, e Brando, solidário à atriz, também desistiu. A solução encontrada foi Alida Valli, conhecida internacionalmente pelo papel em O Terceiro Homem (The Third Man, 1949), e o americano Farley Granger, veterano de filmes de Hitchcock como Pacto Sinistro (Strangers on a Train, 1951). Apesar de não serem as escolhas originais, ambos entregaram, segundo a crítica especializada, as melhores performances de suas carreiras.
- Uma das tragédias dos bastidores do filme foi a morte do diretor de fotografia G.R. Aldo (Aldo Graziati) em um acidente de automóvel durante as filmagens. Aldo era um dos maiores cinegrafistas italianos do pós-guerra — havia filmado La Terra Trema para o próprio Visconti, O Othello de Orson Welles (1951) e os clássicos do neorrealismo Milagre em Milão (1951) e Umberto D. (1952) para Vittorio De Sica. Para concluir o filme, Visconti recorreu a Robert Krasker — o cinematografista de O Terceiro Homem, que capturou a célebre cena de abertura no Teatro La Fenice — e depois a Giuseppe Rotunno, que começou como operador de câmera e terminaria o filme, tornando-se parceiro habitual de Visconti nas obras seguintes.
- O filme enfrentou censura agressiva tanto na Itália quanto no exterior. Após a estreia em Veneza, o Exército Italiano e o Escritório de Censura exigiram cortes nas cenas que retratavam a derrota italiana na Batalha de Custoza — as autoridades temiam que o público associasse a representação à covardia dos partisans durante a Resistência e a conexões com o período da ocupação alemã. Na versão distribuída nos EUA, mais de meia hora foi cortada do filme, que foi rebatizado de The Wanton Countess e lançado apenas em cinemas de língua italiana voltados às comunidades de imigrantes.
- A versão internacional abreviada do filme recebeu contribuições extraordinárias: os diálogos em inglês foram escritos por Tennessee Williams — já então o dramaturgo mais aclamado dos Estados Unidos, autor de Uma Rua Chamada Pecado e Gata em Teto de Zinco Quente — e Paul Bowles, escritor e compositor americano radicado em Marrocos, autor do romance O Céu que nos Protege. A parceria resultou num texto de grande poder literário, embora numa versão que sacrificava a complexidade política do original.
- Visconti rejeitou completamente o uso de uma trilha sonora composta especialmente para o filme, optando por duas obras pré-existentes com significado político deliberado: a ópera Il Trovatore de Giuseppe Verdi — símbolo do Risorgimento italiano, que ecoa no filme como chamado à luta pela unificação — e a Sétima Sinfonia de Anton Bruckner, compositor austríaco, que acompanha a presença do tenente Franz e representa a força da ocupação.
- A recepção italiana do filme na época do lançamento foi marcada por polêmica acirrada. O ensaísta Mark Rappaport, em texto publicado pela Criterion Collection, registrou que Sedução da Carne foi recebido com vaias de indignação pelos críticos de cinema italianos, que o viram como uma traição ao neorrealismo. Visconti, descendente de antiga aristocracia milanesa e militante do Partido Comunista Italiano, via o filme exatamente ao contrário: como um acerto de contas honesto com as elites históricas italianas, cuja arrogância e privilégio, a seu ver, contribuíram para as derrotas militares do país em sua luta pela independência.
- O crítico e historiador de cinema Georges Sadoul — uma das vozes mais respeitadas do cinema mundial em sua época — definiu o filme como um dos mais belos filmes italianos já realizados. A avaliação de Sadoul é citada até hoje em retrospectivas e materiais de distribuição do filme, e reflete o processo lento de reabilitação pelo qual a obra passou nas décadas seguintes ao lançamento.
- Sedução da Carne é considerado o filme que sintetizou pela primeira vez as três vocações artísticas de Luchino Visconti: o cinema, o teatro e a ópera. A cena de abertura no Teatro La Fenice — onde a câmera passeia majestosamente pelo palco e pela plateia durante uma apresentação do Il Trovatore de Verdi, enquanto um incidente político se desenvolve discretamente entre os espectadores — é apontada por estudiosos como uma das sequências de abertura mais artisticamente ambiciosas da história do cinema europeu, e prefigurou a abordagem que Visconti refinaria em O Leopardo (Il gattopardo, 1963) e Morte em Veneza (Morte a Venezia, 1971), suas outras obras-primas da fase tardia.
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Elenco:
| Alida Valli |
Condessa Livia Serpieri |
| Farley Granger |
Tenente Franz Mahler |
| Massimo Girotti |
Roberto Ussoni (o Marquês) |
| Heinz Moog |
Conde Serpieri |
| Rina Morelli |
Laura (a empregada) |
| Marcella Mariani |
Clara (uma prostituta) |
| Christian Marquand |
Oficial Boêmio |
| Sergio Fantoni |
Luca (um fazendeiro) |
| Tino Bianchi |
Personagem secundário |
| Ernst Nadherny |
Personagem secundário |
| Tonio Selwart |
Personagem secundário |
| Jean-Pierre Mocky |
Personagem secundário |
| Franco Arcalli |
Personagem secundário |
| Goliarda Sapienza |
Personagem secundária |
| Ivy Nicholson |
Personagem secundária |