Sinopse:
Nos confins do Arizona, Vienna mantém um saloon sozinha, sem marido, sem sócio, sem pedir licença a ninguém, à espera da chegada da ferrovia que transformará sua terra em fortuna. Mas a cidade vizinha quer vê-la destruída, liderada pela implacável Emma Small, cuja obsessão por Vienna vai muito além de qualquer disputa de terras. Quando Johnny Guitar chega ao saloon para protegê-la, com um passado que ele tenta esquecer e um nome que não é bem o seu, o que começa como uma querela de fronteira revela-se uma batalha de ódios, segredos e lealdades impossíveis, num faroeste como nenhum outro jamais filmado.
Prêmios:
- Indicado ao Oscar de 1954 na categoria de Melhor Canção Original (Victor Young e Peggy Lee).
Curiosidades:
- É impossível separar Johnny Guitar de seu contexto histórico. Feito no auge das caças às bruxas macartistas, o filme é uma das alegorias mais poderosas e explícitas da paranoia que dominava Hollywood e os Estados Unidos. Emma Small é Joseph McCarthy; sua posse de cidadãos de bem é o braço armado do Comitê de Atividades Antiamericanas (HUAC); e Vienna é o indivíduo que se recusa a delatar, a ceder à histeria coletiva para salvar a si mesma. O pedido que Johnny faz a Vienna — Minta para mim. Diga que você me esperou todos esses anos — é um eco desesperado de um mundo em que a mentira se tornou a única moeda de sobrevivência.
- O roteiro foi creditado unicamente a Philip Yordan, notório testa de ferro e articulador supremo da época, que se aproveitava do embargo da lista negra sobre outros escritores para se beneficiar pessoalmente. É amplamente reconhecido que o enigmático esquerdista Ben Maddow contribuiu massivamente para o trabalho — o que faz sentido quando se lê o subtexto anti-HUAC. Uma cena em que Johnny reivindica seu verdadeiro nome, Logan, ressoa com a ideia de alguém que, ao contrário de Maddow, não quer mais se esconder por trás de um pseudônimo.
- Sterling Hayden havia testemunhado perante o HUAC e delatado colegas — um ato do qual se arrependeu pelo resto da vida. Sua atuação como um homem que quer escapar de seu passado violento adquire, assim, uma ressonância trágica e quase metatextual. Havia, portanto, uma cruel ironia no casting: o ator que interpreta a redenção pessoal havia cometido exatamente o tipo de traição que o roteiro condena.
- Joan Crawford era dona dos direitos de adaptação do livro de Roy Chanslor e vendeu a autorização ao estúdio sob a condição de estrelar o filme. Crawford queria que Claire Trevor interpretasse Emma e nunca teve uma boa relação com a escalada Mercedes McCambridge, jovem e competitiva. Os ciúmes e as brigas eram frequentes no set. Apesar de grande parte das filmagens ter acontecido em locação, Joan exigiu que todos os seus closes fossem filmados em estúdio, onde a iluminação podia ser completamente controlada. Ao término das filmagens, Sterling Hayden teria dito: não há dinheiro em Hollywood que me faça voltar a contracenar com Joan Crawford. E eu amo dinheiro.
- Lançado antes da queda do senador McCarthy, Johnny Guitar encontrou resposta morna a indiferente dos críticos americanos. No entanto, o status do filme foi consideravelmente elevado no final dos anos 1950, como resultado de críticas laudatórias dos franceses Jean-Luc Godard e François Truffaut, pouco antes de eles iniciarem sua própria revolução cinematográfica, a Nouvelle Vague. Isso demonstra o papel poderoso da crítica — neste caso, o auteurismo resgatando um filme do esquecimento ao dar-lhe uma leitura alternativa e garantir seu lugar na história do cinema.
- O ícone da Nouvelle Vague François Truffaut proclamou que Johnny Guitar era a Bela e a Fera dos faroestes e disse que qualquer pessoa que não gostasse do filme jamais deveria ser autorizada a entrar numa sala de cinema. Truffaut escreveu sobre Nicholas Ray: ele é o poeta do entardecer. E claro que tudo é permitido em Hollywood, exceto a poesia. Jean-Luc Godard, por sua vez, escreveu a frase que se tornaria um dos aforismos mais citados da história do cinema: existe o cinema. E o cinema é Nicholas Ray.
- Johnny Guitar é mencionado pelo protagonista de Pierrot le Fou (1965), de Godard, e em La Chinoise (1967) por um personagem que é expulso de uma célula revolucionária por defender o filme. Em Weekend (1967), Johnny Guitar serve como indicativo num walkie-talkie. Em A Sereia do Mississippi (1969), de Truffaut, o casal em fuga vivido por Jean-Paul Belmondo e Catherine Deneuve vai ao cinema em Lyon assistir a Johnny Guitar e discute o filme na calçada ao sair.
- Pedro Almodóvar citou o filme em Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988), na cena em que dois atores dublam o famoso diálogo: Minta para mim, diga que você me esperou todos esses anos. O filme inspirou e influenciou cineastas tão diversos quanto o espanhol Pedro Almodóvar, os franceses Godard e Truffaut, o italiano Sergio Leone e o japonês Shinji Aoyama, entre outros.
- Roger Ebert, em seu texto sobre o filme na série Grandes Filmes, destacou o melodrama psicossexual da obra e aludiu às possíveis sugestões bissexuais entre Emma e Vienna — indicadas pelos figurinos masculinizados de ambas e pelos enquadramentos ousados que as mostram em sacadas e na liderança de suas respectivas posses. Jonathan Rosenbaum chamou o filme de um dos 100 clássicos alternativos do cinema americano, afirmando que o estilo tão estilizado e os diálogos tão cadenciados fazem do filme uma inspiração espiritual para a Nouvelle Vague.
- Em um ponto do filme, Johnny diz a frase: sou um estranho aqui também. Esta era a máxima pessoal de Nicholas Ray, um tema recorrente em seus filmes, e era o título provisório de praticamente todos os filmes que ele dirigiu. A frase condensa a visão de mundo de Ray — um artista que nunca se sentiu em casa dentro do sistema que o empregava, e que transformou esse desconforto em linguagem cinematográfica.
- O British Film Institute (BFI) descreve o filme como a segunda produção em cores de Nicholas Ray, marcando uma virada importante em sua carreira em direção ao estilo declaradamente estilizado e melodramático que se tornaria sua marca registrada. A visão de Ray do Oeste selvagem lê-se como uma alegoria gráfica das caças às bruxas comunistas que devastavam carreiras em Hollywood, com uma multidão sedenta de sangue representando McCarthy e seus associados.
- Selecionado para preservação no National Film Registry da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos em 2008.
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Elenco:
| Joan Crawford |
Vienna |
| Sterling Hayden |
Johnny Guitar (Johnny Logan) |
| Mercedes McCambridge |
Emma Small |
| Scott Brady |
The Dancin' Kid |
| Ward Bond |
John McIvers |
| Ben Cooper |
Turkey Ralston |
| Ernest Borgnine |
Bart Lonergan |
| John Carradine |
Old Tom |
| Royal Dano |
Corey |
| Frank Ferguson |
Marshal Williams |
| Paul Fix |
Eddie |
| Rhys Williams |
Sr. Andrews |
| Ian MacDonald |
Pete |
| Denver Pyle |
Membro da Posse |
| Frank Marlowe |
Reyes |